Nariz & Sinusite
O cigarro altera o olfato e o paladar? O que acontece — e se melhora ao parar
O cigarro compromete o cheiro e o gosto por vários caminhos: inflama a mucosa do nariz, agride as células que captam os odores e afeta as papilas da língua. Parar de fumar melhora — mas nem sempre recupera tudo. Entenda o porquê.
Resumo Os pontos principais antes de ler tudo.
- O cigarro altera o olfato (a capacidade de sentir cheiros) e o paladar (a de sentir o gosto) — e por mais de um motivo.
- No nariz, ele gera uma inflamação crônica que atrapalha as moléculas de cheiro de chegarem ao teto do nariz e agride as células neurossensoriais que captam o odor.
- Na língua, afeta as papilas gustativas e, cedo, a discriminação fina — aquela capacidade de distinguir um tipo de chocolate de outro.
- Nem sempre parar de fumar recupera tudo: depende de quantos anos de agressão as células sofreram. Mas parar promove uma melhora importante do cheiro e do gosto.
- É comum, ao parar, sentir mais prazer em comer e comer mais — porque o alimento volta a ter cheiro e sabor.
O cigarro altera o olfato e o paladar? O cigarro gera várias alterações tanto nas vias aéreas superiores, ou seja, no nariz, quanto nas inferiores, ou seja, nos pulmões — disso a gente não tem muitas dúvidas. Mas e a nossa capacidade de sentir os cheiros e o gosto dos alimentos? Também são afetadas. E vale entender por quê.
Sim, e por vários motivos
Olfato e paladar caminham juntos. Boa parte do que a gente chama de "sabor" na verdade vem do cheiro: enquanto mastigamos, os aromas sobem por dentro, do fundo da boca até o nariz. Por isso, quando o olfato falha, a comida parece "sem graça" mesmo que a língua esteja funcionando. O cigarro ataca essa dupla em pontos diferentes — e é isso que faz o efeito ser tão perceptível no dia a dia.
O que o cigarro faz com o olfato
No nariz, dois mecanismos se somam. Primeiro, o cigarro gera um processo inflamatório crônico no interior do nariz. Isso compromete a capacidade das moléculas odoríferas de chegarem até o teto do nariz, que é onde a gente tem, efetivamente, a capacidade de sentir o cheiro. Ou seja: o cheiro até entra, mas encontra um nariz inflamado e não chega ao destino.
Segundo, há uma agressão direta pela toxicidade do cigarro. Com o tempo, acontece uma atrofia das células neurossensoriais — exatamente as células que captam as moléculas de cheiro e levam essa informação em direção ao cérebro. São elas que traduzem o odor em percepção. Quando são danificadas, o sinal enfraquece na origem.
O que ele faz com o paladar
No paladar, a gente também tem várias alterações — especialmente nas papilas gustativas, as estruturas presentes na língua capazes de captar o gosto dos alimentos. O cigarro agride essas papilas e reduz a nitidez com que percebemos os sabores básicos: o doce, o salgado, o amargo, o ácido.
A perda da discriminação fina
Mais do que isso, a gente acaba tendo um comprometimento daquela discriminação fina. Sabe a nossa capacidade de determinar se é um tipo de chocolate ou outro, uma marca de café ou outra? Bem, isso é afetado de forma muito precoce pelo cigarro. Muitas vezes a pessoa nem percebe que "ficou sem" essa sutileza — só nota, mais tarde, que a comida perdeu a graça.
Um detalhe que passa despercebido: o olfato também é um alarme. É ele que avisa sobre um vazamento de gás, uma fumaça, um alimento estragado. Perder o cheiro não tira só o prazer da comida — tira também uma camada de segurança do dia a dia.
Melhora se eu parar de fumar?
Aqui preciso ser honesto: nem sempre parar de fumar vai recuperar tudo em plena capacidade. Depende de quantos anos de lesões efetivas as papilas gustativas e as células neurossensoriais do nariz já sofreram. Há um ponto em que parte do dano se acomoda.
Mas, claro, parar de fumar já promove uma melhora muito importante — tanto no olfato quanto no paladar. E quanto antes se para, maior a chance de recuperar. Não é comum, inclusive, que quem para de fumar acabe aumentando a ingestão de alimentos: é que a comida volta a ter cheiro e sabor, e a gente passa a ter mais prazer ao se alimentar.
Quando procurar o otorrino
- Perda de olfato ou de paladar que não melhora depois de semanas;
- Olfato que sumiu de repente, sobretudo após uma infecção;
- Perda acompanhada de obstrução nasal persistente, secreção ou sangramento;
- Cheiros distorcidos ou "fantasmas" (sentir odor que não existe).
A investigação do olfato passa por examinar o nariz por dentro. Se você convive com nariz entupido, vale ler também sobre por que o nariz vive entupido. E, se quiser avaliar, conheça as consultas na Otoserrana, em Itaipava.
Dúvidas frequentes
Cigarro eletrônico (vape) prejudica menos o olfato?
Não há motivo para considerá-lo seguro para o olfato. O vapor também irrita e inflama a mucosa nasal e das vias respiratórias, e os efeitos a longo prazo ainda estão sendo estudados.
Em quanto tempo o olfato começa a voltar depois de parar?
Varia bastante de pessoa para pessoa. Muitos notam melhora ao longo das primeiras semanas e meses. O grau de recuperação depende do tempo e da intensidade da exposição.
Perdi o paladar mas continuo fumando. Adianta procurar o médico?
Sim. Além de orientar a parada do cigarro, o otorrino investiga outras causas tratáveis (rinite, sinusite, pólipos) que podem estar somando ao efeito do tabaco.
Referências
- Organização Mundial da Saúde. Tobacco — Fact sheet. 2023.
- Instituto Nacional de Câncer (INCA). Tabagismo.
- Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial (ABORL-CCF). Informação ao paciente — olfato.
Este conteúdo é informativo e não substitui a avaliação de um profissional de saúde. Cada caso deve ser avaliado individualmente.
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Escrito por
Dr. Denis Melo Rangel
Otorrinolaringologista
Cuidado em otorrinolaringologia com dedicação especial à audição — do diagnóstico preciso ao tratamento, incluindo surdez e cirurgia de implante coclear, para adultos e crianças.
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