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Ouvido & Audição

Otosclerose: a perda auditiva que avança em silêncio — e quando o implante coclear entra

Ela costuma começar cedo, na casa dos 20 ou 30 anos, e vai tomando a audição aos poucos. Entenda o que é a otosclerose, por que ela é tantas vezes confundida com "cera" ou distração, quais são os tratamentos — e o que a gente aprendeu sobre os casos avançados, apresentado no congresso internacional de otologia em Roma.

Dr. Denis Melo Rangel 9 min de leitura
Resumo Os pontos principais antes de ler tudo.
  • A otosclerose é um osso que cresce onde não devia e trava o estribo — o menor osso do corpo, que precisa se mover para você ouvir. O som deixa de passar.
  • Costuma aparecer entre os 20 e os 40 anos, é mais comum em mulheres, tem história de família e pode piorar na gravidez. Por avançar devagar, é frequentemente confundida com distração ou "cera no ouvido".
  • Na maior parte dos casos tem solução: a cirurgia do estribo (estapedotomia) ou o aparelho auditivo.
  • Mas há uma minoria em que a doença avança e passa a comprometer também o ouvido interno. Aí o aparelho não dá mais conta — e o caminho passa a ser o implante coclear.
  • Foi sobre esses casos avançados que apresentei um trabalho no 34º Politzer Society Meeting, em Roma: a tomografia ajuda a antecipar as dificuldades da cirurgia, e o resultado auditivo costuma ser muito bom.
Dr. Denis Melo Rangel apresentando o trabalho sobre otosclerose avançada e implante coclear no 34º Politzer Society Meeting, em Roma.

"Doutor, por que eu estou ouvindo cada vez pior, se eu ainda sou jovem?" Essa é uma pergunta muito comum no consultório — e uma das respostas possíveis é a otosclerose. Bem, ela é uma das principais causas de perda auditiva em adultos jovens, avança devagar, e por isso passa anos sendo confundida com distração ou com cera no ouvido. Quanto antes a gente investiga, melhor.

O que é a otosclerose

A otosclerose é o crescimento de um osso novo e anormal dentro do ouvido, que acaba travando o estribo — ou seja, o menor osso do corpo humano, e o último de uma corrente de três ossinhos que leva o som do tímpano até o ouvido interno.

E por que isso é um problema? Porque o estribo precisa se movimentar para cumprir a função dele. Quando esse osso anormal cresce ao redor, ele vai ficando fixo, ou seja, o som simplesmente deixa de ser transmitido adiante.

Repare numa coisa muito importante: nesse momento, o ouvido interno e o nervo auditivo estão preservados. O problema é mecânico — a transmissão do som é que ficou comprometida. E é justamente por isso que, na maior parte dos casos, a otosclerose tem um tratamento com resultado tão bom.

Em quem ela costuma aparecer

Bem, a otosclerose tem um perfil bastante característico, e conhecer esse perfil é o que faz a gente pensar no diagnóstico:

  • Adultos jovens — costuma começar entre os 20 e os 40 anos. É uma das principais causas de perda auditiva exatamente nessa faixa, quando o paciente não espera perder audição.
  • Mais frequente em mulheres, e existem relatos de piora durante a gravidez.
  • História na família — é muito comum haver alguém que "ficou surdo cedo". Isso não é coincidência: é informação clínica relevante, e precisa ser contada na consulta.

Os sinais que passam batido

A perda auditiva da otosclerose é progressiva e lenta — e é essa lentidão que engana. Os sinais mais característicos são:

  • Dificuldade que aumenta ao longo dos anos, primeiro com vozes baixas e ao telefone.
  • Zumbido, que frequentemente acompanha o quadro.
  • E um sinal que costuma surpreender o paciente: ouvir melhor no barulho do que no silêncio. Parece contraditório, mas quem tem otosclerose muitas vezes se sai melhor num ambiente cheio — porque, no barulho, as pessoas ao redor elevam a voz.

Eu sempre falo que nada disso é distração ou "idade chegando". É um achado clínico, e existe exame que mostra.

Como se investiga

Eu sempre falo que investigar a etiologia da perda auditiva — ou seja, a causa dela — é fundamental. E é fundamental por dois motivos: para a gente entender o prognóstico, ou seja, como essa perda pode evoluir ao longo do tempo; e para a gente escolher a melhor forma de reabilitação. Sem a causa, a gente não tem nem uma coisa nem a outra.

Na otosclerose, o exame do ouvido costuma ser normal. E isso, por si só, já é uma pista: um tímpano íntegro, sem cera e sem infecção, numa pessoa que vem ouvindo cada vez pior, chama a atenção.

A investigação segue com a audiometria e a imitanciometria. A audiometria mostra o tipo e o grau da perda — e, na otosclerose, ela tem uma assinatura: o som conduzido pelo osso é bem melhor do que o conduzido pelo ar. Isso é, em gráfico, o estribo travado. Quando a gente precisa planejar uma cirurgia, entra também a tomografia, que mostra o osso doente e o quanto ele avançou.

Cirurgia ou aparelho auditivo?

Essa é a pergunta que todo paciente faz, e a resposta é que existem dois caminhos, e os dois são adequados:

  • Cirurgia do estribo (estapedotomia). O osso travado é substituído por uma prótese, que volta a transmitir o som. É feita por dentro do canal do ouvido, sem corte externo, e a melhora auditiva costuma ser consistente.
  • Aparelho auditivo. Funciona muito bem na otosclerose, justamente porque o ouvido interno está preservado.

E aqui eu faço questão de deixar uma coisa clara, porque é uma dúvida que aparece muito: optar pelo aparelho auditivo não é escolher a forma "pior" de tratamento. De maneira nenhuma. É uma forma de reabilitação excelente, a tecnologia tem evoluído de forma constante, e o resultado é muito bom. Não é prêmio de consolação — é uma escolha legítima.

Por outro lado, a perda auditiva não tratada tem consequências, e elas são importantes. Não ouvir bem compromete a comunicação, a vida social e a vida profissional. E, a longo prazo, a perda auditiva não tratada está associada a isolamento social, depressão e até mesmo demência — no idoso, tratar a audição é hoje considerada a principal causa modificável de demência. Ou seja: não tratar também é uma decisão, e ela tem preço.

Quando a doença avança

Bem, existe um grupo de pacientes em que a otosclerose segue outro caminho, e é sobre eles que eu quero falar agora.

Em algumas pessoas, a doença não fica restrita ao estribo. Ela avança e passa a comprometer também o ouvido interno — ou seja, a cóclea, onde ficam as células responsáveis por transformar o som em sinal nervoso. Quando isso acontece, a perda deixa de ser apenas mecânica e passa a ser também neurossensorial. É o que a gente chama de otosclerose avançada.

E aí a conduta muda. O aparelho auditivo deixa de oferecer o ganho necessário — porque não basta amplificar o som se a estrutura que recebe esse som está comprometida. Nesses casos, a indicação passa a ser o implante coclear, que estimula o nervo auditivo diretamente.

E essa é a parte importante: os resultados auditivos do implante coclear na otosclerose avançada costumam ser muito bons.

O que a gente levou para Roma

Em outubro de 2024 eu apresentei, no 34º Politzer Society Meeting — o encontro internacional da sociedade de cirurgia e ciência otológica, realizado em Roma —, um trabalho exatamente sobre esses casos avançados, na sessão de implante coclear em adultos.

Dr. Denis Melo Rangel no 34º Politzer Society Meeting, congresso internacional de otologia realizado em Roma, em outubro de 2024.
34º Politzer Society Meeting — Roma, outubro de 2024. A Politzer Society é a sociedade internacional de cirurgia e ciência otológica.

A pergunta que a gente foi responder é prática: a tomografia consegue antecipar o que vamos encontrar na cirurgia? Bem, o implante coclear na otosclerose avançada não é igual aos demais. O osso doente pode dificultar a inserção do eletrodo, e existe uma complicação característica dessa doença — o estímulo elétrico acabar atingindo o nervo facial, que passa muito próximo dali.

O que a gente avaliou foram três coisas em conjunto: o resultado auditivo após o implante, as complicações, e a gravidade da doença na tomografia. E a mensagem foi essa: a gravidade que a gente vê na imagem ajuda a antecipar a dificuldade — ou seja, permite planejar melhor a cirurgia, escolher o eletrodo mais adequado e prever o problema em vez de encontrá-lo no meio do procedimento. E, mesmo nesses casos mais difíceis, o ganho auditivo compensa.

Esse trabalho nasceu durante o meu fellowship em Otologia na UFRJ, e poder apresentá-lo fora do país, representando o grupo em que me formei, foi motivo de muito orgulho.

Eu conto isso aqui por um motivo muito importante: para você saber que, quando o seu caso fugir do comum, existe quem tenha estudado exatamente esse "fora do comum".

Dúvidas frequentes

Otosclerose tem cura?
Tem tratamento, e na maior parte dos casos com muito bom resultado. A cirurgia do estribo costuma devolver a audição, e o aparelho auditivo é uma alternativa igualmente válida. Nos casos avançados, o caminho é o implante coclear.

É hereditária?
Frequentemente existe história na família. Se alguém próximo perdeu audição cedo, conte isso na consulta — é informação clínica relevante.

Preciso operar logo?
Não é uma emergência. É uma decisão que se toma com calma, com a audiometria em mãos e considerando o quanto a perda incomoda você. Operar e usar aparelho são dois caminhos legítimos.

A otosclerose piora na gravidez?
Existem relatos de piora nesse período. Se você já tem o diagnóstico e está grávida ou planejando engravidar, vale conversar sobre isso na consulta.

Referências

Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta com um médico. Cada caso precisa de avaliação individual.

Se você tem menos de 40 anos, vem ouvindo cada vez pior e existe história de perda auditiva na sua família, não deixe isso seguir por mais alguns anos. Uma consulta e uma audiometria respondem essa pergunta — e, na maior parte das vezes, a resposta vem com solução junto.

Alguma dúvida ou alguma pergunta, eu vou ter o maior prazer de responder na consulta.

Otoserrana · Itaipava

Zumbido, perda auditiva, doenças do labirinto, tontura e implante coclear.

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Escrito por

Dr. Denis Melo Rangel

Otorrinolaringologista

Cuidado em otorrinolaringologia com dedicação especial à audição — do diagnóstico preciso ao tratamento, incluindo surdez e cirurgia de implante coclear, para adultos e crianças.

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