Ouvido & Audição
Otosclerose: a perda auditiva que avança em silêncio — e quando o implante coclear entra
Ela costuma começar cedo, na casa dos 20 ou 30 anos, e vai tomando a audição aos poucos. Entenda o que é a otosclerose, por que ela é tantas vezes confundida com "cera" ou distração, quais são os tratamentos — e o que a gente aprendeu sobre os casos avançados, apresentado no congresso internacional de otologia em Roma.
Resumo Os pontos principais antes de ler tudo.
- A otosclerose é um osso que cresce onde não devia e trava o estribo — o menor osso do corpo, que precisa se mover para você ouvir. O som deixa de passar.
- Costuma aparecer entre os 20 e os 40 anos, é mais comum em mulheres, tem história de família e pode piorar na gravidez. Por avançar devagar, é frequentemente confundida com distração ou "cera no ouvido".
- Na maior parte dos casos tem solução: a cirurgia do estribo (estapedotomia) ou o aparelho auditivo.
- Mas há uma minoria em que a doença avança e passa a comprometer também o ouvido interno. Aí o aparelho não dá mais conta — e o caminho passa a ser o implante coclear.
- Foi sobre esses casos avançados que apresentei um trabalho no 34º Politzer Society Meeting, em Roma: a tomografia ajuda a antecipar as dificuldades da cirurgia, e o resultado auditivo costuma ser muito bom.
"Doutor, por que eu estou ouvindo cada vez pior, se eu ainda sou jovem?" Essa é uma pergunta muito comum no consultório — e uma das respostas possíveis é a otosclerose. Bem, ela é uma das principais causas de perda auditiva em adultos jovens, avança devagar, e por isso passa anos sendo confundida com distração ou com cera no ouvido. Quanto antes a gente investiga, melhor.
O que é a otosclerose
A otosclerose é o crescimento de um osso novo e anormal dentro do ouvido, que acaba travando o estribo — ou seja, o menor osso do corpo humano, e o último de uma corrente de três ossinhos que leva o som do tímpano até o ouvido interno.
E por que isso é um problema? Porque o estribo precisa se movimentar para cumprir a função dele. Quando esse osso anormal cresce ao redor, ele vai ficando fixo, ou seja, o som simplesmente deixa de ser transmitido adiante.
Repare numa coisa muito importante: nesse momento, o ouvido interno e o nervo auditivo estão preservados. O problema é mecânico — a transmissão do som é que ficou comprometida. E é justamente por isso que, na maior parte dos casos, a otosclerose tem um tratamento com resultado tão bom.
Em quem ela costuma aparecer
Bem, a otosclerose tem um perfil bastante característico, e conhecer esse perfil é o que faz a gente pensar no diagnóstico:
- Adultos jovens — costuma começar entre os 20 e os 40 anos. É uma das principais causas de perda auditiva exatamente nessa faixa, quando o paciente não espera perder audição.
- Mais frequente em mulheres, e existem relatos de piora durante a gravidez.
- História na família — é muito comum haver alguém que "ficou surdo cedo". Isso não é coincidência: é informação clínica relevante, e precisa ser contada na consulta.
Os sinais que passam batido
A perda auditiva da otosclerose é progressiva e lenta — e é essa lentidão que engana. Os sinais mais característicos são:
- Dificuldade que aumenta ao longo dos anos, primeiro com vozes baixas e ao telefone.
- Zumbido, que frequentemente acompanha o quadro.
- E um sinal que costuma surpreender o paciente: ouvir melhor no barulho do que no silêncio. Parece contraditório, mas quem tem otosclerose muitas vezes se sai melhor num ambiente cheio — porque, no barulho, as pessoas ao redor elevam a voz.
Eu sempre falo que nada disso é distração ou "idade chegando". É um achado clínico, e existe exame que mostra.
Como se investiga
Eu sempre falo que investigar a etiologia da perda auditiva — ou seja, a causa dela — é fundamental. E é fundamental por dois motivos: para a gente entender o prognóstico, ou seja, como essa perda pode evoluir ao longo do tempo; e para a gente escolher a melhor forma de reabilitação. Sem a causa, a gente não tem nem uma coisa nem a outra.
Na otosclerose, o exame do ouvido costuma ser normal. E isso, por si só, já é uma pista: um tímpano íntegro, sem cera e sem infecção, numa pessoa que vem ouvindo cada vez pior, chama a atenção.
A investigação segue com a audiometria e a imitanciometria. A audiometria mostra o tipo e o grau da perda — e, na otosclerose, ela tem uma assinatura: o som conduzido pelo osso é bem melhor do que o conduzido pelo ar. Isso é, em gráfico, o estribo travado. Quando a gente precisa planejar uma cirurgia, entra também a tomografia, que mostra o osso doente e o quanto ele avançou.
Cirurgia ou aparelho auditivo?
Essa é a pergunta que todo paciente faz, e a resposta é que existem dois caminhos, e os dois são adequados:
- Cirurgia do estribo (estapedotomia). O osso travado é substituído por uma prótese, que volta a transmitir o som. É feita por dentro do canal do ouvido, sem corte externo, e a melhora auditiva costuma ser consistente.
- Aparelho auditivo. Funciona muito bem na otosclerose, justamente porque o ouvido interno está preservado.
E aqui eu faço questão de deixar uma coisa clara, porque é uma dúvida que aparece muito: optar pelo aparelho auditivo não é escolher a forma "pior" de tratamento. De maneira nenhuma. É uma forma de reabilitação excelente, a tecnologia tem evoluído de forma constante, e o resultado é muito bom. Não é prêmio de consolação — é uma escolha legítima.
Por outro lado, a perda auditiva não tratada tem consequências, e elas são importantes. Não ouvir bem compromete a comunicação, a vida social e a vida profissional. E, a longo prazo, a perda auditiva não tratada está associada a isolamento social, depressão e até mesmo demência — no idoso, tratar a audição é hoje considerada a principal causa modificável de demência. Ou seja: não tratar também é uma decisão, e ela tem preço.
Quando a doença avança
Bem, existe um grupo de pacientes em que a otosclerose segue outro caminho, e é sobre eles que eu quero falar agora.
Em algumas pessoas, a doença não fica restrita ao estribo. Ela avança e passa a comprometer também o ouvido interno — ou seja, a cóclea, onde ficam as células responsáveis por transformar o som em sinal nervoso. Quando isso acontece, a perda deixa de ser apenas mecânica e passa a ser também neurossensorial. É o que a gente chama de otosclerose avançada.
E aí a conduta muda. O aparelho auditivo deixa de oferecer o ganho necessário — porque não basta amplificar o som se a estrutura que recebe esse som está comprometida. Nesses casos, a indicação passa a ser o implante coclear, que estimula o nervo auditivo diretamente.
E essa é a parte importante: os resultados auditivos do implante coclear na otosclerose avançada costumam ser muito bons.
O que a gente levou para Roma
Em outubro de 2024 eu apresentei, no 34º Politzer Society Meeting — o encontro internacional da sociedade de cirurgia e ciência otológica, realizado em Roma —, um trabalho exatamente sobre esses casos avançados, na sessão de implante coclear em adultos.
A pergunta que a gente foi responder é prática: a tomografia consegue antecipar o que vamos encontrar na cirurgia? Bem, o implante coclear na otosclerose avançada não é igual aos demais. O osso doente pode dificultar a inserção do eletrodo, e existe uma complicação característica dessa doença — o estímulo elétrico acabar atingindo o nervo facial, que passa muito próximo dali.
O que a gente avaliou foram três coisas em conjunto: o resultado auditivo após o implante, as complicações, e a gravidade da doença na tomografia. E a mensagem foi essa: a gravidade que a gente vê na imagem ajuda a antecipar a dificuldade — ou seja, permite planejar melhor a cirurgia, escolher o eletrodo mais adequado e prever o problema em vez de encontrá-lo no meio do procedimento. E, mesmo nesses casos mais difíceis, o ganho auditivo compensa.
Esse trabalho nasceu durante o meu fellowship em Otologia na UFRJ, e poder apresentá-lo fora do país, representando o grupo em que me formei, foi motivo de muito orgulho.
Eu conto isso aqui por um motivo muito importante: para você saber que, quando o seu caso fugir do comum, existe quem tenha estudado exatamente esse "fora do comum".
Dúvidas frequentes
Otosclerose tem cura?
Tem tratamento, e na maior parte dos casos com muito bom resultado. A cirurgia do estribo costuma devolver a audição, e o aparelho auditivo é uma alternativa igualmente válida. Nos casos avançados, o caminho é o implante coclear.
É hereditária?
Frequentemente existe história na família. Se alguém próximo perdeu audição cedo, conte isso na consulta — é informação clínica relevante.
Preciso operar logo?
Não é uma emergência. É uma decisão que se toma com calma, com a audiometria em mãos e considerando o quanto a perda incomoda você. Operar e usar aparelho são dois caminhos legítimos.
A otosclerose piora na gravidez?
Existem relatos de piora nesse período. Se você já tem o diagnóstico e está grávida ou planejando engravidar, vale conversar sobre isso na consulta.
Referências
- Politzer Society — International Society for Otologic Surgery and Science. 34º Politzer Society Meeting, Roma, 13–16 de outubro de 2024 — sessão Cochlear Implant (Adult), apresentação "Advanced otosclerosis and cochlear implant: audiometric results, complications and severity on computed tomography association".
- Brazilian Society of Otology task force — cochlear implant: recommendations based on strength of evidence. Brazilian Journal of Otorhinolaryngology.
- Cochlear implantation among patients with otosclerosis: a systematic review of clinical characteristics and outcomes. PubMed.
- Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial (ABORL-CCF).
Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta com um médico. Cada caso precisa de avaliação individual.
Se você tem menos de 40 anos, vem ouvindo cada vez pior e existe história de perda auditiva na sua família, não deixe isso seguir por mais alguns anos. Uma consulta e uma audiometria respondem essa pergunta — e, na maior parte das vezes, a resposta vem com solução junto.
Alguma dúvida ou alguma pergunta, eu vou ter o maior prazer de responder na consulta.
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Zumbido, perda auditiva, doenças do labirinto, tontura e implante coclear.
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Escrito por
Dr. Denis Melo Rangel
Otorrinolaringologista
Cuidado em otorrinolaringologia com dedicação especial à audição — do diagnóstico preciso ao tratamento, incluindo surdez e cirurgia de implante coclear, para adultos e crianças.
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