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Nariz & Sinusite

A cirurgia pelo nariz já vai muito além da sinusite — o que vi no congresso mundial de Atenas

A mesma via endoscópica que trata a sinusite hoje chega à base do crânio: vazamento de líquor pelo nariz, tumores e até dor de cabeça refratária. O que se discutiu no 10º Congresso Mundial de Cirurgia Endoscópica, em Atenas — e o que isso muda para você.

Dr. Pedro Vianna 9 min de leitura
Resumo Os pontos principais antes de ler tudo.
  • A cirurgia endoscópica nasal deixou de ser só "cirurgia de sinusite": pelo nariz, sem cortes por fora, hoje se opera também a base do crânio, a órbita e a hipófise.
  • Em junho de 2026 estive no 10º Congresso Mundial de Cirurgia Endoscópica (EndoAthens), em Atenas, apresentando dois trabalhos do nosso grupo de pesquisa e presidindo uma sessão.
  • Um deles mostra algo importante: em quem tem vazamento de líquor pelo nariz, fechar o furo não basta — em 67% dos pacientes a pressão dentro da cabeça continuava alta depois da cirurgia. Tratar essa pressão é parte do tratamento.
  • O outro descreve uma técnica nova, guiada por endoscopia, para tratar cefaleia em salvas — aquela dor de cabeça em crise que não responde a remédio.
  • Nada disso substitui o básico: a maior parte do que a gente vê no consultório continua sendo rinite, sinusite e desvio de septo. Mas é bom você saber até onde a via nasal chega hoje.
Dr. Pedro Vianna apresentando o trabalho sobre pressão intracraniana no 10º Congresso Mundial de Cirurgia Endoscópica (EndoAthens 2026), em Atenas.

Quando eu digo que sou cirurgião de nariz, quase todo mundo entende a mesma coisa: "ah, você opera sinusite e desvio de septo". E é verdade — é boa parte do que a gente faz. Mas a especialidade andou. Hoje, essa mesma via, por dentro do nariz e sem corte nenhum por fora, é a porta de entrada para lugares que até pouco tempo atrás só se alcançava abrindo a cabeça. Quero te contar o que mudou — e o que vi no congresso mundial da área, em Atenas, agora em junho.

O nariz virou uma porta

Pensa no nariz como um corredor. No fim dele, lá no fundo e em cima, tem um "teto" — é a base do crânio, o assoalho onde o cérebro se apoia. Sempre esteve ali. O que mudou foi a nossa capacidade de chegar até esse teto com uma câmera fina, enxergando cada milímetro numa tela, e trabalhar ali com segurança.

Na prática, isso quer dizer que a mesma técnica que a gente usa pra ventilar um seio da face entupido hoje também permite fechar um vazamento do líquido que banha o cérebro, retirar tumores da hipófise, tratar lesões que empurram o olho pra fora. Sem serrar osso, sem corte no rosto, sem ponto na bochecha. É uma mudança grande, e ela não parou de acontecer.

Atenas: onde a especialidade se encontra

De 18 a 20 de junho aconteceu em Atenas o 10º Congresso Mundial de Cirurgia Endoscópica de Seios Paranasais, Base do Crânio, Cérebro, Órbita e Coluna — o EndoAthens. É o encontro principal dessa área: reuniu mais de mil professores e palestrantes, de 63 países, junto com a Sociedade Europeia de Rinologia e a Academia Americana de Otorrinolaringologia, entre outras.

Estive lá representando o Brasil e o nosso grupo de pesquisa, apresentando dois trabalhos e presidindo uma das sessões. Não conto isso por vaidade — conto porque os dois trabalhos dizem respeito direto a coisas que talvez estejam acontecendo com você, ou com alguém que você conhece. Vamos a eles.

Dr. Pedro Vianna no 10º Congresso Mundial de Cirurgia Endoscópica de Seios Paranasais, Base do Crânio, Cérebro, Órbita e Coluna (EndoAthens 2026), em Atenas.
EndoAthens 2026, Atenas — 10º Congresso Mundial de Cirurgia Endoscópica de Seios Paranasais, Base do Crânio, Cérebro, Órbita e Coluna, realizado em conjunto com a CEORL-HNS (europeia) e a AAO-HNSF (americana).

Quando sai um líquido claro pelo nariz

Tem uma queixa que costuma passar batida por anos: "doutor, escorre uma aguinha do meu nariz". Água mesmo — clara, fina, sem cor. Quase sempre de um lado só. E que piora quando a pessoa abaixa a cabeça pra amarrar o sapato, faz força ou pega peso.

Isso não é rinite. A coriza da rinite vem dos dois lados, acompanhada de espirro, coceira, nariz entupido. O que eu descrevi ali em cima pode ser fístula liquórica: uma falha na base do crânio por onde escapa o líquor — o líquido que envolve e protege o cérebro. Ele está vazando pra dentro do seu nariz.

Parece assustador, e eu não vou fingir que é banal: enquanto existe essa comunicação aberta entre o nariz e o cérebro, existe risco de infecção subir por ali. Mas é um problema identificável e tratável. A cirurgia endoscópica fecha essa falha por dentro do nariz. É exatamente o tipo de coisa que a gente aprendeu a fazer sem abrir a cabeça de ninguém.

A pressão que ninguém estava olhando

Agora, o achado que a gente levou pra Atenas — e que pra mim é o mais importante deste texto.

Durante muito tempo, o raciocínio diante de uma fístula liquórica foi mais ou menos assim: tem um furo, então vamos tapar o furo. Faz sentido. Só que, quando a gente foi acompanhar de perto o que acontecia com esses pacientes depois da cirurgia, apareceu uma coisa que muda a conduta.

No nosso estudo, com pacientes operados por vazamento de líquor pelo nariz, a gente mediu a pressão dentro da cabeça no pós-operatório. Resultado: 67% deles continuavam com a pressão intracraniana elevada, e todos mantinham sinais dessa pressão alta na ressonância.

Traduzindo pro concreto: em boa parte dos casos, o furo era o sintoma, não a causa. A causa era a pressão. É como uma panela de pressão com um furinho na tampa — você solda o furinho, mas se não baixar o fogo, ela vai furar em outro canto. Por isso a nossa conclusão foi que tratar a pressão precisa entrar no plano junto com a cirurgia, e não depois que o problema reaparece. Em alguns pacientes isso significa medicação; em outros, um encaminhamento pra neurocirurgia avaliar uma válvula de drenagem.

É esse tipo de coisa que justifica ir a um congresso: você senta com quem opera isso no mundo inteiro e descobre que o seu incômodo com um resultado não era impressão sua.

A dor de cabeça que não responde a remédio

O segundo trabalho é sobre um problema que talvez você conheça de perto: a cefaleia em salvas. Não é enxaqueca, não é "dor de cabeça de tensão". É uma dor que vem em crises, quase sempre de um lado só da cabeça, atrás do olho, com o olho lacrimejando e o nariz escorrendo daquele mesmo lado. É descrita como uma das dores mais fortes que existem em medicina, e há gente que convive com ela há anos sem resposta ao tratamento.

Repara numa coisa: o olho que chora, o nariz que escorre. Isso não é coincidência — tem um "centro de fiação" nervosa bem ali no fundo do nariz, chamado gânglio esfenopalatino. É ele que comanda essas reações. E quem tem acesso natural a esse ponto, por dentro, é justamente o cirurgião de nariz.

O que a gente descreveu foi uma técnica nova para chegar até esse gânglio, guiada por endoscopia nasal, para implantar um estimulador que modula esse nervo — uma alternativa para os casos que não respondem a remédio. Um detalhe da técnica: o gerador do aparelho é colocado por uma incisão atrás da orelha, do mesmo jeito que se faz num implante coclear, o que evita as complicações de dor e inchaço na boca que as abordagens antigas causavam.

Sendo transparente com você: por enquanto isso é um trabalho de viabilidade da técnica, feito em modelo anatômico. Não é um tratamento de prateleira, disponível na esquina. Mas é assim que as coisas começam — e é bom você saber que existe gente trabalhando nisso.

O que isso muda pra você

Talvez você esteja lendo isso e pensando: "legal, mas eu só tenho o nariz entupido". Então deixa eu ser bem honesto sobre o que isso significa na prática.

A maior parte do que entra no consultório continua sendo o básico — rinite, sinusite, desvio de septo, ronco. E ainda bem. Cirurgia de base do crânio é coisa de exceção, feita em hospital, com equipe e estrutura próprias. Não é o que a gente faz na clínica em Itaipava, e eu não quero que fique nenhuma impressão diferente disso.

O que muda é o olhar. Muda saber que aquela "aguinha só de um lado" merece uma segunda pergunta em vez de mais um spray. Muda entender que a dor de cabeça com olho lacrimejando tem endereço anatômico. Muda que, quando a sua queixa foge do roteiro comum, tem alguém aqui na serra que reconhece o roteiro incomum — e sabe pra onde te encaminhar.

É pra isso que a gente estuda e vai atrás. Não pra colecionar congresso: pra ter repertório na hora que o seu caso não for o do livro.

Dúvidas frequentes

O que é cirurgia endoscópica da base do crânio?
É a cirurgia feita por dentro do nariz, guiada por câmera, que alcança o "teto" do nariz — a base do crânio. Sem cortes por fora e sem abrir a cabeça. É a mesma via da cirurgia de sinusite, levada mais longe.

Sai um líquido claro pelo meu nariz. Pode ser líquor?
Pode. O sinal típico é secreção clara, aguada, quase sempre de um lado só, que piora ao abaixar a cabeça ou fazer força — diferente da coriza da rinite, que vem dos dois lados com espirro e coceira. Existe exame que diferencia. Procure avaliação.

Depois de operar a fístula, o problema pode voltar?
Pode, quando a pressão dentro da cabeça segue alta — foi justamente isso que o nosso estudo mostrou em 67% dos casos. Por isso a pressão precisa ser tratada junto, e não só o vazamento.

Vocês fazem essa cirurgia na clínica?
Não. Na clínica a gente faz a avaliação — consulta, endoscopia nasal, leitura dos exames — e indica o caminho de cada caso. A cirurgia de base do crânio é hospitalar.

Referências

Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta com um médico. Cada caso precisa de avaliação individual.

Se alguma coisa aqui pareceu com o que você vem sentindo — principalmente essa história do líquido claro só de um lado —, não fica só na dúvida, tá? Marca uma avaliação. A gente olha com calma e te diz o que é.

Grande abraço.

OtoSerrana · Itaipava

Rinite, sinusite, desvio de septo e obstrução nasal.

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Escrito por

Dr. Pedro Vianna

Otorrinolaringologista

Realizo consultas, exames e cirurgias em pacientes de todas as idades, com um objetivo: devolver a sua qualidade de vida — sempre com base na ciência e na melhor tecnologia disponível.

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